Pequena Cecília
- Caaara, que massa isso do casamento! Já sabem o nome do primeiro filho de vocês?!
- Cecília! Com sorte, a primeira de três. A Ana já morre de inveja dela.
- Sério, menina?! Que legal! E que nome diferente...
- Sim, bacana, né?
- Pois é. Da onde veio?! É pela escritora?
- Até admiro, mas não completamente.
- Sério? Ela era boa, né? É então por aquela moça lá do... como é que é... do livro romântico e tal...
- Ah, "O Guarani"? Peri, Ceci...?
- Isso!
- Olha, até é também. Mas na real, acho que preciso admitir que é mais pensando numa personagem de um jogo de videogame.
- Ahahahahahahhahaha...
- Oi?
- Bah, que louco isso, Érico!
- Peraí, deixa eu te mostrar quem ela é.
* pega o celular*
- Ela é a da direita, a loira.
- Nossa, que diferente. Tá... mas... por que isso?
- Isso quê?
- O videogame, Cecília.
- Cara, é bizarro, mas eu acho a história dela muito boa. Gostaria que a minha filha fosse independente como ela. Ela era uma princesa, e foi meio que criada para ser rainha, casar e tudo o mais. No entanto, depois da morte dos pais, ela entra de vez em um grupo de aventureiros, numa jornada para salvar o mundo, essas coisas japonesas. É nesse processo que ela descobre o verdadeiro poder mágico que mora dentro dela, e tudo o mais. Ela se solta, corta o cabelo, enfrenta uns monstros loucos, aprende uns truques geniais... é demais! De diferente, só diria que, no nosso caso, espero que a nossa Cecília possa ser independente enquanto eu e Ana ainda estivermos vivos.
*risadas nervosas, pensar na morte não é legal*
- Bah, que loucura. Deve ser chato morrer...
- Cara, é um negócio que pode parecer nada ver. Mas faço muita questão disso. Na minha família a gente, infelizmente, acabou não tendo muito o modelo de que mulheres, sim, devem ser independentes, devem ir atrás do que querem... e isso seria algo que ficaria feliz se conseguisse mudar nas gerações futuras. Ah, claro, e caso a Cecília se case, que faça isso com um cara que se veja como parceiro, não como provedor.
- Top. Tá, e esse jogo ainda existe?
- Aham. Esse lance de família é muito complicado... não sei, parece ter faltado alguma coisa. Acho que a minha mãe, por exemplo, deve ter se realizado com todos os filhos, mas sempre fico pensando se ela por acaso não acha que deixou algo pra trás, tipo a profissão. Afinal, largou o trabalho para acompanhar meu pai, e depois que nós crescemos não conseguiu se readaptar muito bem. É uma escolha difícil, que eu não sei se ela queria ter feito, mesmo... se talvez meu pai tivesse sido mais parceiro...
- É foda.
- Acho que o casamento desperta essas coisas. A gente começa a pensar especialmente sobre o que pode tentar fazer diferente. Pode ser que dê tudo errado, mas pelo menos posso ficar tranquilo de que gostaria que meus filhos tivessem algo diferente, que pudessem se sentir livres, meninas ou meninos.
*interlocutor recebe mensagem no whatsapp, sendo abduzido pela tela verde*
- Aham... mas é isso aí, cara. A gente se vê no futebol?
- Aham, aham. Confirma lá no grupo?
- Faço isso hoje!
- Beleza. Fui lá então! Até quarta!
***
Moral da história: joguem Wild Arms.
Érico


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