O Poder da Sardinha


Anilda é de Porto Alegre, e eu sou do Rio de Janeiro. Pode parecer que não é grande coisa, mas é um dado importante na nossa relação. Vou contar o porquê.

***

Estávamos em agosto de 1835. Fazia sucesso como vendedor de sardinhas. Tinha uma banca no centro do Rio de Janeiro, chamada "O Amor de Netuno". Até mesmo Dona Alice de Aguiar, habituée na Corte dos Bragança, costumava visitar o meu estabelecimento. Dizia ela que todos em sua casa gostavam das sardinhas, que elas traziam vitalidade. 

Sabia eu, entretanto, que as sardinhas eram destinadas a um só consumidor. Poucos sabiam, mas as minhas sardinhas gozavam de propriedades mágicas. O amante de Alice, o mascate Bonifácio de Sá, fazia uso delas para manter-se firme e alerta. Dona Alice era, pelo que diziam, muito ativa, e não deixava o pequeno do Bonifácio descansar.

E os dias seguiam assim. Juntava recursos e me divertia com esses miúdos detalhes da vida cotidiana. Era como um precursor das colunas sociais.

Enquanto isso, revoltas pareciam pipocar por toda parte. O Brasil estava em crise. Súditos pouco leais querendo se separar da Coroa. Uma vergonha. Gente irritadiça e ingrata começava a se movimentar no sul do Império. O assunto era corrente por aqueles dias de agosto... falava-se muito num levante, coisa séria. Uns tais farroupilhas se armavam.

***

Um dia, próximo do encerramento de minhas atividades, adentrou em minha loja uma jovem. Vestido esvoaçante, chapéu na cabeça. Olhos verdes. Sombrinha. Uma bela visão para uma quinta-feira de pouco movimento.

Como se soubesse o que fazia, tirou as luvinhas e conferiu o conteúdo dos barris. Pegou uma sardinha pelo rabo, mirou-a nos olhos, e, confiante, disse: "pequena, você salvará nossa revolução".  

E, slurp, de um só sorvo, pôs o peixinho garganta adentro.

A última vez que tinha visto alguém fazer aquilo tinha sido nos Açores. 

- Interessada em sardinhas, senhorita?

Ela parecia não dar conta da minha presença. Com seu indicador, espalhava os bichinhos pelo barril, pegava-os pelo rabo, e slurp, os engolia.

Na quarta sardinha, peguei sua mão, algo pouco ortodoxo para os padrões civilizatórios portugueses.

-  Interessada em sardinhas, senhorita?

Me fuzilou com os olhos verdes.

- Sim. Quero dez mil delas.

Confesso que fiquei um pouco confuso. 

- Pois não, senhorita. Seria para uma convenção de tubarões? 

Tentei ser engraçadinho, mas tudo que recebi foi outro olhar fuzilante. 

- Não. Preciso que seja tudo remetido para Laguna amanhã.

Laguna? Era uma cidadezinha no sul de Santa Catarina. Por que diabos, será que...

- Fique sabendo, senhor, que estamos sabendo das propriedades energéticas do seu produto. Vim do sul só para trazê-las para nossos exércitos. Nossos espiões sabem de tudo. Sou Anita. Vamos matá-lo se você me delatar.

Santo Inácio de Loyola, Batman! A compradora era uma farroupilha!

***

- Senhorita, preciso alertá-la que as minhas sardinhas, além de saborosas, são normalmente utilizadas para alegrar a vida conjugal. Não há pesquisas sérias sobre os seus benefícios em atividades militares.

- Senhor Eurico (era esse meu nome), acompanhamos o seu produto há muito tempo. Já o testamos em nossos soldados, e, posso garantir, com elas, venceremos qualquer guerra.

Ela girava sua sombrinha sobre o ombro direito. A qualquer momento poderia dar com ela em minha cabeça, e lá morreria eu. Dando-me conta do risco que corria, mudei de estratégia.

- Minha jovem, acho que começamos no pé errado. Não quero que me leve a mal. Eu admiro a causa de vocês. Gosto de Repúblicas. O mar, como você sabe, é republicano. Peixinhos maiores são comidos pelos peixinhos maiores, mas, quando os peixinhos menores se juntam em cardumes... são invencíveis! Até a maior das baleias sente medo.

Anita deixou de balançar sua sombrinha.

- Hum.

Sorri.

- É sério. A República é genial.

- Hu-hum.

(TPM?)

Aquela conserva, opa, conversa, não parecia ter muito destino. Não parecia ser um bom momento para o flerte.

- Dez mil sardinhas. E viva Bento Gonçalves!

- Perfeito, senhor. Entregue tudo nesse barco. Ele é de um dos nossos agentes. Saiba que, agora, você faz parte da Revolução. Qualquer passo em falso e... fim.

Anita, sem tirar os olhos de mim, me entregou um cartão. Engoliu uma última sardinha e saiu porta fora, talvez de volta para seus pagos. O sol já se punha.

***

Como vocês sabem, a Revolução Farroupilha durou dez anos. General Bento Gonçalves, em várias de suas cartas a Lucas de Oliveira, tratou de elogiar as propriedades das "sardinhas cariocas". Também o General Lima e Silva, das tropas imperiais, perguntava-se "se esses irredutíveis gaúchos tinham uma poção mágica". 

Carga farroupilha sob efeito das sardinhas da "O Amor de Netuno".

Tenho a impressão de que, não fossem minhas sardinhas, provavelmente a guerra no sul não teria durado tanto tempo. O que me deixa entristecido, porém, é que os livros escolares nada mencionam sobre a revolucionária farroupilha, verdadeira heroína das lutas de independência. Melhor, inclusive, que a Anita do Garibaldi. 

Enfim, talvez esse seja o destino dos espiões: ficar à sombra da História. 

***

Séculos depois, Anita e Eurico se reencontraram e viveram felizes para sempre. Abaixo, um registro de sua primeira viagem ao Rio de Janeiro:

Sardinhas que nos uniram. 

Eurico

Comentários

"- Pois não, senhorita. Seria para uma convenção de tubarões?"

Ana olha para Érico com um olhar fuzilante, ao chegar nessa parte do texto.

......

Qual não é minha grandissíssima satisfação ao descobrir que ele me representou maravilhosamente bem no trecho imediatamente seguinte?!?

"Tentei ser engraçadinho, mas tudo que recebi foi outro olhar fuzilante."

......

Érico manja muito dos paranauê.
Unknown disse…
Essa postagem não precisava constar a autoria, porque a perspicácia do trocadalho (conserva/conversa) denuncia!
NegO do Borel disse…
Uma lastima as Anitas esquecidas da história. Dizem que antes da brilhante autora de "Paradinha" teve uma que lutou numa revolução aí.
Anônimo disse…
Bravo!!! Que escrita excelente!

Postagens mais visitadas