Fernandos Pessoinhas (ou Casamento Coletivo)

Este texto é sobre casar com uma pessoa só que é muita gente ao mesmo tempo.

Temos, Ana e eu, um relacionamento só, mas com muitas relações possíveis. Não sei quanto a vocês, mas me parece que carregamos diversas versões, e essas versões se relacionam com as diversas versões dos outros. Não somos o mesmo o tempo todo, e jamais seremos uma coisa acabada. 

Fernando Pessoa Heterônimo,/i> (1976), obra de Costa Pinheiro

Ana e Érico são muitos, são como aqueles heterônimos do Fernando Pessoa. Temos nossas personalidades, fases, jeitos, alegrias e tristezas, que nos fazem múltiplos. Como diria o poeta,

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu. 


Se carregamos várias almas, é bem provável que cada um de nós tenha vários nomes. Aliás, acho  que vemos isso na prática, todos os dias, quando chamamos um ao outro.

(Versão editada por Ana com os apelidos reais das diferentes facetas de Érico. Se ele achou que ia revelar para o mundo minha personalidade Ana Pabla de graça, mantendo a sua reputação, elegância e sobriedade, está redondamente enganado. Risos vingativos.)

Por exemplo, quando estamos bem, sou o Érico, ou Eriquinho (na verdade, nessas horas ele é chamado carinhosamente de Éricozinho - ou, na sua variante menos polida, o "o" inicial é substituido por um "u" - Ele finge que tem vergonha da semelhança do apelido com uma parte menos nobre do corpo humano, mas no fundo sabe que Ériquinho não teria o mesmo charme ou efeito). Sou amado, me sinto bem, me alimento adequadamente, faço esportes. Nesses momentos, assistimos a Downton Abbey e fazemos pão de queijo. Os pombos da praça se transformam em gaivotas falantes. 

É lindo.

Quando jovem e saudável. Avós me respeitavam nessas horas.

No entanto, quando faço algo travesso, me torno o "ÉRICO LOYOLA" (descrição muito acurada do mundo real. Normalmente nessas ocasiões, meu olho tende a se expandir e logo em seguida a se contrair abruptamente, como se o engolisse vivo). Nesse momento, procuro me encolher nas cobertas, deixando só os olhos de fora. Sei que fiz algo errado, esdrúxulo, meio equivocado. Desconcertado, largo um quase mudo "desculpa Ana,,,"

Eu na minha versão "goblin assustado", depois de ouvir as críticas da Ana (Fonte: http://geekandsundry.com/how-to-build-a-5e-goblin-pc-a-character-creation-story/)

Tem vezes, também, que me torno Ericolino. Essa é uma versão mais light e bem humorada do Érico entre pontos de exclamação. É a minha versão bobo da corte. Faço piadas estranhas, e adoto comportamentos pouco ortodoxos. Mando mensagens de madrugada. Ana, no geral, gosta dessa versão, embora às vezes simplesmente não consiga entender nada.

Outras horas sou simplesmente Arianinho ou "Carneirinho" (Arianinho nunca. Carneirinho sempre. Ô raça, bem que minha mãe tentou me alertar... mas não dei ouvidos e agora já eras, não tem como dar backwards no coração). Ana diz isso em tom jocoso, mas eu sei que ela simplesmente sente inveja desse signo fantástico que deu início a tudo e a todos. Amém. Obrigado. Já falei que é o melhor signo do Zodíaco? Ah, sim? Não? Que importa. 

E a Ana?

Rá, a Ana é tomada por várias pessoas também, que eu nomeio conforme o clima.

No dia a dia, ela é Ana. Meiga, espirituosa e trabalhadora. Dona de olhos verdes gigantes e de um humor que não sei da onde veio. Caminha por aí com desenvoltura, pensando sempre na próxima refeição (💚💚💚 corações verdes para combinar com meus olhos)

Tem momentos ainda mais felizes em que ela é Aninha, ou mesmo Anilda. Nessas horas, ela segue pensando na próxima refeição, mas os cabelos ganham uma cor de sei lá o que muito apaixonante. Além disso, a gente olha e fica com vontade de contar as pintas e de contar muitas histórias. A gente quer conquistar a atenção dessa menina, porque ela faz por onde.

Ana fazendo o que mais gosta: administrando o tempero e comendo.

Mas não se enganem. 

Coloquem seus sombreros. Toquem suas guitarras. Peguem sua tequila. A versão mexicana da Ana chegou, e ela se chama Ana Pabla. Irmã da Maria do Bairro, nessa sua forma a nossa heroína se converte numa bandoleira capaz de destroçar corações. Atriz e cantora, dançarina de mambo. Um negócio louco.


         

Tem uma última forma, mais serena, porém belicosa: a Baronesa. Fleumática, organizada. Exímia atiradora e cozinheira. Entretanto, curiosamente, essa versão não tem aparecido muito nos últimos meses de relacionamento. Acho que a Baronesa pôs o biquíni e foi curtir o Mediterrâneo, num interminável verão.

E aí fomos nós. Talvez, ao longo desses dias, outras versões apareçam. Quem sabe, até mesmo algumas dessas formas venham a desaparecer. No casamento, entretanto, estejam certos: serão mais de dois ali no altar.

Érico

Comentários

Unknown disse…
Tá faltando uma versão do Érico Surfista Paraguaio. Esse deve ter ido dar uma voltinha por aí atras da Ana Baronesa!
Kkk
Anônimo disse…
Então, eu quero dizer que eu que recomendei o Downton Abbey! 😬
Anônimo disse…
"não tem como dar backwards no coração". Áries forevis!

Postagens mais visitadas