Desabafo de uma noiva extenuada
Este não será um post inventivo, feliz ou anedótico. Há
quinze dias minha criatividade se escondeu em alguma gaveta secreta aqui de casa.
Depois de sentir um tanto de desconforto slash bater cabeça por algum tempo, pareço
ter encontrado pistas que deixariam Sherlock Holmes orgulhoso. Para solucionar
o caso: escrever.
Ninguém disse que organizar um casamento era missão fácil. Conciliar
a vida que não para com a agenda de compromissos inevitáveis e inadiáveis é
tarefa complexa até para o mais talentoso malabarista. Gerenciar desejos e idealizações
vs realidade e viabilidade, reduzindo as frustrações ao mínimo, é ainda mais complicado.
Nas últimas semanas, no entanto, difícil mesmo tem sido manejar as várias expectativas
e projeções dos outros com relação a esse evento que, em última instância, tem
a ver principalmente com o que nós, noivos, de fato queremos para a nossa
relação.
Não estou falando aqui das ideias e devaneios compartilhados
entre uma pausa para o café e outra. Nem dos conselhos e inputs implícita ou explicitamente
solicitados. Estou na verdade falando das diversas demandas e, por vezes,
julgamentos não-intencionais, que estão baseados nas necessidades dos outros,
mas que não tem absolutamente nenhuma conexão com as nossas (minhas e do Érico)
necessidades, anseios e desejos.
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| by someone wise |
Como noivinha preocupada e treinada em agradar a todos que
sou, e detentora de uma severa dificuldade em colocar em primeiro lugar as
minhas próprias necessidades, confesso: as duas últimas semanas me esgotaram.
Nada de grave aconteceu. Não ameacei matar ninguém no meio do caminho – nem o
pobre do Érico, às vezes objeto da minha fúria passivo-agressiva. Mas nessas
semanas, me meti em situações em que tive que administrar demandas que não são
minhas, conciliar interesses de terceiros que não tem nada a ver comigo, ceder
mais do que ver os outros cederem.
O meu modus operandis nesses 30 anos de vida foi sempre o
mesmo – resolver tudo diligentemente, torcendo para que alguém se dê conta de que
algo está diferente/estranho e, a partir dessa constatação, finalmente me olhe
de verdade, oferecendo consideração, apoio ou apenas uma piada para espairecer.
Mas tenho aprendido ao longo da terapia que isso não funciona. Ninguém tem bola
de cristal. Se não for clara no pedido de ajuda, as chances de não ser atendida
são enormes.
Então agora, a exatos 80 dias do casamento, vou colocar em
prática algo que já estou ensaiando desde o final do ano passado: tenho um
pedido a fazer. Antes de vir com uma demanda, respire fundo, conte até dez, e
pense se a sugestão que você está prestes a fazer / se o que você está prestes
a pedir / se a tradição que você está prestes a invocar / se a maneira de
trazer tudo isso à tona tem a ver: A) com o que nós, noivos, queremos/precisamos,
ou B) com as projeções que você está prestes a colocar no nosso colo.
Se a resposta for a opção #1, ficaremos para sempre agradecidos
de contar com o seu carinho, com o seu apoio e, principalmente, com a sua ajuda
pró-ativa nesse momento caótico mas tão adorável. Agora, se depois de uma reflexão
mais aprofundada você se der conta que o que está valendo de verdade verdadeira
é a opção #2, não se acanhe.
Eu também já passei por isso. E quando me dei conta do que
tinha feito, me senti envergonhada e culpada na última potência. E porque me
sinto culpada, finjo para mim mesma que nunca deslizo rumo à opção #2 (afinal
de contas, quem diabos vai querer se sentir culpada?). O problema é que nesses
casos entro numa espiral que não faz bem nem para mim, nem para o outro.
Então se esse for seu caso, vá à padaria. E ao
comprar um delicioso croissant e dar a primeira mordida divina, faça as pazes
consigo mesmo e engavete o pedido/demanda/tradição. O seu estômago ficará feliz,
a sua alma ficará tranquila, e essa noivinha que vos fala terá mais tempo para
correr atrás do que realmente importa: curtir o noivinho gato que está
descansando aqui do lado no sofá, planejar uma festa de arromba que tenha a
nossa cara, e, last but definetely not least, viver. Viver esse momento mágico
que acontece no presente, e que depois de terminado, não volta mais. 💕
Ana


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