Pudim Noturno (ou sobre porque não faço doces)
Vou contar algo que se passou comigo, quando, em outra vida,
morávamos, Ana e eu, no simpático vilarejo bávaro chamado Iffeldörf.
Esse relato, espero, servirá para explicar aos leitores, pelo
menos em parte, porque nunca tentei preparar doces. E porque, claro,
admiro tanto os dotes culinários da Ana.
A história se passa no inverno do ano de 1365.
Fazia um frio danado.
Ana havia saído uns dias antes para visitar os seus parentes em
Wackersberg. Ela fazia essas viagens mensalmente, e, na volta, sempre me trazia
alguma coisa: lembranças da igreja, docinhos, barris de cerveja etc.
Gostava muito daqueles gestos. Demonstrava um carinho que eu
levava no fundo do meu coração, e que me fazia confirmar, a cada dia, o acerto
da escolha dos nossos pais em providenciar a nossa união frente à Igreja e ao
Barão de Mittëlvald, o senhor daquela região.
Dessa vez, entretanto, queria retribuir a preocupação da Ana com um presente. Não era justo que só ela demonstrasse o seu afeto, eu também deveria fazê-lo, e em grande estilo. Por isso, com senso de aventura, resolvi fazer um delicioso pudim.
Dessa vez, entretanto, queria retribuir a preocupação da Ana com um presente. Não era justo que só ela demonstrasse o seu afeto, eu também deveria fazê-lo, e em grande estilo. Por isso, com senso de aventura, resolvi fazer um delicioso pudim.
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| Pudim (Fonte: globo.com) |
Conversei com a nossa vizinha, a Natália Ebeling, e tomei ciência dos ingredientes necessários: ovos, açúcar e leite condensado, o último vindo do futuro. Fui buscar tudo no final da tarde. Por sorte, o gnomo da cidade ainda tinha leite condensado. Ele me cobrou quarenta moedas de ouro, mas ainda assim paguei de bom grado. Ana merecia.
Cheguei em casa durante a noite. Morávamos longe do centro de Iffeldörf, em um lugar ermo, cercado por uma floresta de pinheiros.
Não havia ninguém ao nosso redor.
Dispus tudo organizadamente sobre a nossa grande mesa de madeira (eu era muito organizado, então). Fiz fogo (sabia fazer fogo). Comecei o processo (isso eu faço até hoje). Naquele momento, só eu, o vento e as colheres fazíamos companhia um para o outro.
Flop, flop, flop.
Flop, flop, flop.
Levantei a cabeça. Passos na neve! Definitivamente, alguém, ou alguma coisa, circundava a casa. Parei o que estava fazendo. Os ouvidos estavam atentos, mas foram as narinas que notaram a presença de algo inumano, ou que, se fosse humano, não tomava banho desde o martírio da bruxa Gëdefrinda, em 1330. O martírio tinha sido um sucesso, a bruxa suportara muito tempo, até morrer afogada.
Nheeeeeim.
A porta da casa se abrira. O vento invadiu os cômodos e espalhou neve por tudo. Ana ia ficar irritadíssima com a bagunça. Sorte, ao menos, que já tinha deixado o doce no fogo, assando.
Tomei coragem e me virei. E eis que vejo, à minha frente, um lobo caminhando sobre duas patas.
- Prazer, sou o lobo Egbert.
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| Egbert (Fonte: meusanimais.com.br) |
Não preciso dizer que o choque foi imenso. Não era todo dia que a
gente via um lobo na soleira de casa, muito menos um em pé, que falava, e que
se chamava "Egbert", nome muito incomum. Aliás, com certeza, a
situação era estranha demais até para os padrões da Idade Média.
E fazia muito frio.
O animal tomou a dianteira:
- Moro no bosque. A pequena raposa Ingel me contou que, nesta
casa, havia um cozinheiro, e que este fazia um pudim. Pois bem, escute você:
pudim é minha sobremesa favorita.
Arregalei os olhos. "Mein Gott".
- Pode parecer estranho, mas assim que soube vim correndo para cá.
Minha mãe costumava cozinhar essa iguaria todo final de semana. Éramos seis
lobinhos, e eu, sendo o mais novo e mais fraco, tinha que brigar com meus
irmãos. Como você pode imaginar, nem sempre era bem-sucedido em conseguir uma
fatia. Aliás, nunca conseguia, sofria de asma, era terrível, não tinha fôlego
para a briga.
Não podia acreditar no que ouvia. Egbert abria seu coração.
- Mas algo mudou gradualmente dentro de mim. Apesar de tudo, era
um lobo. Precisava encontrar meios que me destacassem. Por isso, talvez como
uma espécie de compensação, desenvolvi habilidades pouco lupinas. Aprendi
alemão com um padre de Ërfurt, que depois devorei. Roubei livros de alquimia,
cujos ensinamentos me permitiram fazer uma poção para andar sobre duas patas.
Ah, e aprendi tudo sobre a vida dos santos latinos, o que me garante horas de
conversa.
Definitivamente, um lobo estudado.
- Como você pode ver, busquei aprimoramento e me tornei um lobo
feito. Só uma coisa não mudou. Aquela lembrança do pudim de minha mãe, e da
briga com meus irmãos, segue viva. E, ah, tudo isso me faz sentir tão
diminuído, nobre amigo! Mas escute bem: acredito que possa dar um novo sentido
às minhas relações e ao meu passado se tiver um pudim só meu, que eu
conquiste com as minhas próprias habilidades.
(Aquele lobo por acaso fazia terapia?)
Já podia adivinhar para onde a conversa se dirigiria.
Já podia adivinhar para onde a conversa se dirigiria.
Egbert abriu um sorriso cheio de caninos.
- Por isso, pergunto: será que você poderia gentilmente me ofertar
a sua deliciosa iguaria? Isso aliviaria a minha alma, e evitaria, claro, um
desnecessário banho de sangue.
Novo sorriso.
Não tive dúvidas. Coloquei as luvas e tirei o pudim, ainda quente,
de dentro do forno. Ele não estava muito firme, mas dava para o gasto.
Providenciei uma caixinha de madeira e o coloquei dentro, tapando-o com um pano
de prato português, presente da minha família.
Tremendo, entreguei a sobremesa ao lobo, que, satisfeito, saiu, pé
ante pé, até a porta, onde fez uma mesura.
- Muito obrigado, gentil senhor.
E fechou a porta atrás de si.
Ainda apavorado, peguei uma vassoura e comecei a amontoar a neve
num canto. Ana não teria pudim quando voltasse, mas certamente tinha o direito
a ter uma casa organizada.
Esse seria o meu presente para ela.
Érico



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